VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

Era numa quinta-feira, início de noite na verdade, o almoço seria no sábado de tarde, estava eu no pátio da Universidade, Lucrécia tinha partido mais cedo. Após ficar num bate-papo com outros colegas, quando eram quase 18 horas, caminhei então em passos lentos em direcção à paragem. No mesmo lado, ao da Universidade havia uma viatura de cor vermelha estacionada. De longe parecia um Infinity, mas não, era o último modelo da Nissan Patrol. A vidraça do meu lado estava arriada, uma senhora no interior, usando óculos escuros acenava para mim, vi de relance. Talvez desejasse uma informação sobre a universidade, foi o que me ocorreu.
— Boa noite, moça. Tudo bem?
Ela retirou os óculos escuros e esboçou um sorriso, um sorriso simpático. Acheguei-me à janela e respondi:
— Boa noite, sim, senhora. Estou bem, obrigada.
— Desculpa, conhece o professor Catarino, o de Psicologia?
— Catarino, sim conheço.
— Ah, boa. Será que ainda está por aí?
— Não. Eu acho que não o vi hoje. Mas as lições da tarde já terminaram, faz algum tempo, por isso fica muito difícil um professor do nosso turno ser encontrado aqui a estas horas. Por que a senhora não liga para ele?
— Tem razão, já é muito tarde, eu prometi aparecer às 16:30. Estou a ligar para ele e não atende. Deve estar zangado. Deixe para lá, eu volto a ligar amanhã.
No interior da viatura da senhora, uma luxúria. Um perfume raríssimo advinha dali e invadia-me os canais respiratórios. A senhora que aparentava estar acima dos quarenta anos, de tez clara e olhos grossos tinha uma voz altiva e parecia muito animada. Claro, num carrão daquele, com Change your mind, Said The Sky Feat. Vancouver no som de fundo, quem não ficaria com aquela aura animada?
— Ah, desculpe não ter ajudado, minha senhora.
— Não, não faz mal. Já agora, onde vai?
— Ah, eu ia mesmo atravessando para o outro lado. Vou no lado contrário ao da senhora.
— Onde exactamente, porque eu vou fazer o retorno.
— Vou para São Paulo.
— Olha que coincidência. Eu vou por essa via. Chego até a Cuca, vivo mesmo ali nos três prédios.
— Ah, não sei. Eu realmente não quero incomodar.
— Que nada! Vou ficar incomodada se a deixar ir sozinha a essa hora, com tantos perigos que há por aí nas ruas de Luanda.
E fiquei uns segundos hesitante, depois simplesmente abri a porta que ela já tinha destrancado e entrei naquela viatura que exalava a luxúria e ostentação. Apertei os cintos, retirei o telemóvel da bolsa e verifiquei o horário: 18:45.
— Qual é o nome da senhora? — perguntei-a e a apreciava a dar início à marcha e a manejar o volante. Tinha voltado a colocar os óculos no rosto.
— Telma, meu nome é Telma.
— Certo. Jana. É assim que eu me chamo.
Ela resmungou uma palavrinha que eu mal entendi, meio que premiu os dentes, até deduzi que fosse a rigidez no volante e fiquei à espera que ela repetisse, nada. Levei os olhos ao meu telemóvel e fiquei a vasculhar as notificações nas redes sociais.
Quando dei por mim, estávamos a descer a via que leva ao Hospital do Prenda, estávamos mesmo próximo do hospital, no que eu, de forma assustada meio que gritei:
— Senhora Telma! O que estamos a fazer aqui?
— Cala a boca, minha cabra*!
Com o susto que apanhei, fruto daquela rispidez, tentei abrir a porta sem me importar se o carro estava em movimento, ela trancou-as. O único impulso que me restou foi gritar e fazer movimentos com as mãos para as pessoas me verem, foi quando ouvi outra intervenção dela.
— Tenta isso e morre$ agora mesmo, put@ de merd@, tenta!
E estava bem apontado a mim, em metal prateado e reluzente. Sustive os movimentos e a respiração, fiquei a olhar para o revólver, para o revólver e para a assassina. Foi só aí que eu me toquei, o meu cérebro, embora trémulo como todo o corpo, rebuscava, espicaçava. A voz ríspida, a arquitectura do rosto, já me pareciam familiar, num instante fiquei confusa, não conectava os momentos, mas o argumento dela trouxe tudo à mesa.
— Seria melhor se ficasses no teu lugar, se não enfiasses a colher no prato das mais-velhas!
— Senhora Fênix, o que a senhora quer comigo? O que eu fiz exactamente?
— Pois bem, então já ligaste os pontos. Como assim não sabes o que fizeste? Responde-me sua put@ fingida! Como não sabes que me roubaste o homem e hoje vou ensinar-te a não desrespeitares os mais velhos nem aqui nem noutro mundo para onde vais?
Eu fiquei fria, com a garganta seca, sem acção, sem palavras. Deixei-me pasmada, apenas a olhar para ela que conduzia de forma veloz, com a arma firme na mão direita. Não sabia o que fazer. E quando a via se tornava mais limpa, ela acelerava ainda mais, duas opções pareciam visíveis naquele momento, ou morríamos as duas no acidente, ou então, assim que nós deixássemos a cidade, matava-me.
Tínhamos apanhado a via que nos leva ao Futungo e a maníaca fervia, fervia e resmungava enquanto eu orava no silêncio, sabia — bom, desconfiava — que aquele seria o meu dia, pensava em como seria o momento em que ela encontrasse um lugar isolado para enfiar uma bala na minha cabeça e deixar-me abandonada, a engasgar-me no próprio sangue. O telemóvel já nem estava na minha mão, tinha caído no tapete e não consegui apanhá-lo.
Pensei na minha mãe, muito mais nela, na dor que ela sentiria com a minha partida e as lágrimas começaram a nascer dos meus olhos. Lembrei do Yami, belo, mas também o motivo da minha precoce interrupção de viagem na terra, com todos os sonhos jogados ao acaso, dói. E finalmente, a imagem do meu pai veio, com uma aura cabisbaixa, com dor visível no rosto, dor da alma.
Meio que tinha fechado os olhos naquela viagem de despedida ou epifania, até que senti o veículo imobilizar e vi de longe um agente da polícia, com o colecte reflector, cones à beira da estrada.
— Escuta, primeiro apanha e desliga essa merd@ de telemóvel. Pronto. Olha, não faz nada estúpido, está bem? Qualquer movimento em falso, estouro-te os miolos, os teus e os desse estúpido polícia. Não me tenta, está bem?
Eu acenei a cabeça positivamente, bastante trémula.
— Muito bem, agora, enquanto converso com ele, continua a olhar para frente. Ché, limpa essas lágrimas, rápido, caralh0!
Baixei a cabeça e limpei-me com a blusa. Depois ouviu-se:
— Boa noite, senhora. Os documentos da viatura, por favor.
Ela mal se deu ao trabalho de responder à saudação, retirou o envelope e entregou ao homem. A arma tinha metido por baixo das pernas. O agente verificou minuciosamente os documentos, dirigiu-se à parte frontal do veículo e confirmou a matrícula.
— Onde vão as senhoras? — perguntou ao voltar-se para nós.
— Benfica. Nós moramos lá, senhor agente.
— Mas tanto na carta como no bilhete não consta essa morada.
— Mudámo-nos recentemente.
— Certo. Por favor, estacione só um pouco mais para o lado, preciso confirmar uma informação.
E a maníaca avançou um pouco mais para a berma. Enquanto conversavam, o agente fitava-me firmemente, mas eu sempre mantive o olhar para frente, com medo. O policial, atrás do veículo, retirou o rádio e começou a falar, com aqueles códigos que só eles percebem. A diaba fervia e soltava favas, resmungava, olhava constantemente para os lados e trespassava as mãos trémulas ao revólver. E então ouvimos: "Sim, é exactamente de cor vermelha. Sim, é a mesma ocupante.”
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