OS PILARES DA MINHA FUNDAÇÃO




Passaram-se mais de setenta anos desde que fui erguida. Eu assisti muitos fenómenos desde que recebi o meu primeiro morador. Antes eram os brancos, mais tarde apercebi-me que foram eles que me projectaram e construíram. Fiquei também a saber que eles vieram de longe, essa não era a terra deles. Os locais, que passaram a ser os meus principais ocupantes muitos anos mais tarde, chamavam-lhes colonizadores. Eu ri a primeira vez que ouvi o nome e soube do significado.
Lembro-me muito bem do meu vigor enquanto era ainda jovem, recém-erguida. Cheia de energia a transbordar-me o corpo, as minhas pernas, os pilares da minha fundação eram tão fortes, que eu pensava que seria eterna. Não duvido nada que eles mesmo, os humanos, tenham cometido a loucura de pensar igual, que eu nunca ruiria, que a minha vitalidade jamais venceria.


Em 1975 vi os meus primeiros donos abandonarem-me às pressas, mas não foi repentino, alternavam por famílias. Eu os ouvia cochichar em segredos, melhor partirmos enquanto é cedo, tem de ser hoje. Daqui a nada a coisa vai ficar muito feia aqui dentro e seremos esmagados. Fiquei preocupada, pensei que o meu corpo estava à beira de desfazer-se sem, no entanto, provocar-me sintomas. Só quando fiquei totalmente abandonada, quando vi já outra comunidade romper as portas e ocupar os compartimentos é que me toquei: havia uma rixa entre os homens, brancos e negros e os negros finalmente ganharam o direito da sua própria terra.
Dias depois, na noite de terça-feira, 11 de Novembro do mesmo ano, ouvi os gritos, assobios e o discurso daquele que se tornou no primeiro Presidente de Angola. Foi aqui perto, no largo que depois foi construído para marcar essa data, os barulhos chegavam até aqui, além disso, não sei se vocês sabem, nós fomos construídos com capacidade de absorver tudo o que acontece num arco superior a cinquenta quilómetros. E mesmo das coisas que não ouvimos, quantas pessoas passam por aqui na rua a falarem disso ou daquilo que aconteceu aqui ou acolá? Muitos, incluindo nossos próprios moradores.
Hoje, passado todo esse tempo, sinto-me à rasca, como se o peso todo do mundo estivesse suspenso no meu tecto. Até avisei às pessoas que já não aguentava mais, sacudi-me um pouco para eles ouvirem os estalidos, caíram mesmo alguns cacos, principalmente na varanda. Parece que foi uma boa ideia, logo de manhã vi o corpo de bombeiros fazer vistoria nos compartimentos, e conversou com as famílias que aqui vivem. Mas como é que eles vão tirar os seus objectos mais valiosos em tempo útil? Olha aquela família no segundo andar, cheia de mobílias caras e pesadíssimas. E o senhor lá acima que tem tanto dinheiro armazenado num dos quartos, como ele vai fazer? Mas já agora, como o gajo acumulou tanto dinheiro? Também, com a idade dele, já reformado, certamente pertencia à classe dos privilegiados.
Quando chegou a noite, já a maioria das pessoas me tinha abandonado. Alguns deles, ingratos, sequer se despediram de mim. Depois de todos estes anos? Humano sendo humano! Vi a dona Débora aos prantos, a retirar a última bacia de roupa, ela e a filha choravam um monte, viviam no terceiro andar. Alzira, a filha, tinha agora vinte e cinco anos e nasceu ali num dos quartos, parto caseiro. Choraram por quase uma hora (senti-me contagiada, chorei por dentro), só interromperam quando o velho Kiala ligou para a esposa para dar-lhe ralhetes. Estão aí a fazer o quê? Querem morrer? Desçam daí, pois o motorista está à vossa espera há mais de uma hora! Voltaram a olhar os luxuosos compartimentos, que agora eram só paredes e enfeites sem valor, e foram-se. Eram já quase vinte horas, tinha sido mesmo proibida qualquer incursão no interior. Pena que não tinha ao lado polícias para vigiar, se havia eu não vi.
Quase ao meio da noite, tinha eu caído no sono, tentava enganar um pouco a agonia que as dores me provocavam. Quando despertei, uma das minhas pernas estava quase a ceder, não aguentaria mais do que três minutos. Fiquei assustada quando vi as luzes acesas em alguns quartos, depois me lembrei, trinta minutos antes de adormecer, vi duas moças subirem às escondidas até ao terceiro andar onde outra moça teimosa estava fechada. Essa moça tentava ainda passar a mesma noite no seu quarto, talvez não acreditasse tanto nos apelos dos bombeiros. As outras foram lá persuadi-la a sair, mas penso que se perderam nas conversas e ficaram tempo demais. No quarto andar, estava o velho reformado, sentado na cama, não se mexe, apenas olha para o vão da porta. Pensava na quantidade de dinheiro que tem naquele quarto e que irá se perder?
Foi neste misto de pensamentos que ouvi um agudo estalido entre as pernas e a dor profunda levou-me a repensar os bons e maus anos que vivi nesta cidade de Luanda. Depois, voltei a pensar nos homens, quando vi os poucos que estavam ali no interior tentando em vão alcançar a saída e salvar-se. Patéticos, se ao menos me tivessem feito manutenções periódicas eu teria vivido um pouco mais. Espero que aprendam alguma coisa com o meu desfalecimento, que não aconteça o mesmo com essa minha vizinha que é até mais-velha de mim, ou aquela ali que é maior e nasceu quase na mesma época que eu.
Fim.
Paz às famílias afetadas no desabamento do prédio, na madrugada de sábado.
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Texto revisto por: Alzira Simões
Luanda, 26 de Março de 2023
Lucas Cassule

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