O PAI QUE NASCEU DO VENTRE DA FILHA
(Publicado no Jornal Angolano de Artes e Letras, uma homenagem ao dia da "cidade" de Luanda).
Já o Sol se tornava demasiado alaranjado. Daqui a pouco será engolido pelo Atlântico, pensou o velho. Estendeu o braço naquela pequena árvore e mediu a fraca temperatura, tentando precisar as horas. Quase dezassete, sussurrou, e mirou ao longo da praia, onde o seu bisneto brincava com os amigos. O vento salgado abanava a copa do sombreiro e de tudo o que havia à volta. Kubindama, com o seu chapéu de hastes de palmeira na cabeça, fitava o menino que agora se aproximava a si, em passos rápidos.
— Bisa!
— Sim, meu menino!
A voz do velho ecoa num breve arfar, seus 85 anos já não lhe permitem tanto fôlego. O menino não ouve, mas lê-lhe os lábios, já estava acostumado. Quase todos os dias, de tarde, dirige-se ali para jogar, tomar banho de sal e conversar com o velho.
— Será verdade que Luanda é a filha e Angola é o pai?
O velho não sabe o que responder de primeira. Sacode-se um pouco na cadeira, suspira, sente aquela dor habitual no corpo, nas pernas inflamadas e volta a ter aquela dificuldade de respirar. Tosse. O menino continua ansioso pela resposta, sempre fora assim, o bisavô era o oráculo dele, todos os dias trazia dúvidas e saía sempre satisfeito com as respostas, que as levava a partilhar com os amigos.
Perguntou depois se o velho estava bem, estou sim, não te preocupes, meu menino. Mas e a tosse, Bisa? Não é nada, anda cá, pronto, senta-te aqui ao lado do “bisa”, como dizes. O menino riu e obedeceu, sentou-se na areia ao lado do velho. Kubindama voltou a fitar a maresia, depois avançou o olhar até à beira e reconheceu, o mar aos poucos ia ficando mais bravo. Hoje vai haver calemas, pensou. A Kianda deve estar enfurecida. As rugas no rosto negro dele representam as medalhas dos anos vencidos, a barba é farta e totalmente grisalha.
— É melhor os teus pais entregarem as oferendas hoje — disse mais tarde, quebrando o silêncio e a curiosidade do menino que acompanhava os seus movimentos.
— Mas o aniversário não é amanhã, Bisa?
— É sim — Fez outro silêncio mortal. — Mas ela não pode esperar. Vai haver Calemas.
Pengo não entendia nada de sereias e divindades, mas respeitava, assim como muitos outros meninos. Ele encolheu os ombros nus, estava só de calção. Depois fitou os seus amigos, um deles estava com a bola na mão e fazia sinal para ele. Podem continuar, já venho, gritou depois.
— Sim. Se colocarmos as coisas por esse ponto, posso dizer que sim: Luanda é a filha.
Pengo meneou a cabeça e pensou, o Bisa está cada vez pior. Suas respostas, suas reacções em relação às coisas pareciam cada vez mais lentas. A velhice é estranha e a vida pior ainda. A bisavó, mulher de Kumbindama, falecera há dois anos e era também dois anos mais nova que o marido. Pengo chorara bastante, dentre os bisnetos, ele era o que mais tempo ficava com a velha.
— E por que é que o pai é o menor? Foi a filha quem deu à luz o pai?
— Ora essa agora! — o velho voltou a tossir, o português dele é limpo, era dos assimilados no tempo do colono, aprendeu a profissão da pesca, depois passou para os seus filhos e netos. — Quem te conta essas filosofias na tua idade?
— É o Levi, meu amigo que estuda a 10.ª classe. O professor disse-lhe que Angola tem menos anos que Luanda, mas Angola é o pai e Luanda a filha. Mas isso é possível, avó?
O velho voltou a estender os olhos às crianças que corriam atrás da bola, reconheceu entre eles o menino Levi, conhecia-o bem, vivia na casa ao lado e sempre brincava ali com os bisnetos e netos.
— Ora, é uma boa questão.
Kubindama lembrou-se dos anos de Pengo, um ano menos do que o Levi, ao menos esse dado não se apagou com a idade. Voltou a recostar-se para trás. Pengo deu razão ao avô quando reparou nas ondas que comiam já poucos metros de onde eles estavam. Calemas!
— São as datas que marcaram as suas fundações — Voltou a olhar para o bisneto e soltou um curto sorriso — Luanda foi fundada há mais de 400 anos e Angola começamos a contar apenas na data da independência. É nesse sentido meu, bom neto.
Pengo sorriu e abanou a cabeça, já sabia o que dizer aos amigos. O velho voltou a sentir o desgosto dos tempos, tinha dito ao filho mais velho que já vivera o suficiente, se negara até a ir ao hospital ver o problema do reumatismo e das dores constantes que sentia no corpo. Sempre pensou que a sua vida mudaria para melhor, mas olhando para trás, viu que o ciclo se repetia, não passara de simples pescador e os seus sucessores repetiam a proeza. A esperança reside nos mais pequenos, netos e bisnetos. O Pengo talvez vá ser engenheiro, é muito esperto e adora estudar. Eram as suas preces, ao menos ele não se interessava pelas pescas. Não tinha nada contra a profissão, mas sempre desejou ter um médico, um jornalista e todas as outras profissões na família, mas todos herdaram a “maldição da pesca” e largaram os estudos pelo caminho.
Pengo parou de jogar e olhou para onde deixara o bisavô, abandonou os outros meninos com o coração nas mãos, até os amigos assustaram-se e seguiram-no, outros foram rapidamente para casa dele buscar ajuda.
Ao terceiro dia, Pengo voltou àquele lugar, sentou-se na velha cadeira de madeira que pertencera ao velho durante tantos anos, naquele sombreiro com largas copas, e olhava para o horizonte inerte, para lá onde os navios atracavam, na ponta da Ilha de Luanda. Ficou só por muito tempo, com a mão acariciando o colar de búzios que ganhara de Kubindama, os olhos lacrimejantes presos nas ondas e na vertigem dos navios que se perdiam às vezes no horizonte.
— Quando eu for grande, quero ser pescador que nem o Bisa, mas um pescador ainda maior, dono de barcos grandes! — disse mais tarde, em sussurro.
𝐋𝐮𝐜𝐚𝐬 𝐂𝐚𝐬𝐬𝐮𝐥𝐞
Luanda, 16 de janeiro de 2023


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