OS DILEMAS EXISTENCIAIS NO HOMEM DE LUCAS CASSULE


 












 

 

O presente texto tem por objectivo analisar as indeterminações, ou seja, os dilemas existenciais (subordinados as questões: quem sou? onde estou? que sentido me reserva a existência?) que recaem sobre «o homem de Lucas Cassule» na sua mais recente obra “O Homem que Acordou Sozinho na Terra.” A nossa abordagem serve-se das preposições filosóficas do existencialismo, principalmente, aquele defendido por Sartre em que a “existência precede essência”, para analisar, no homem de Lucas Cassule, a liberdade como consciência de ser, a angústia como indeterminação que se sobrepõe a qualquer certeza tida por inabalável.

 

 

[1]

«Quem dentre nós não é, ainda, vazio, sozinho e desconhecido? »

Thomas Wolfe

 

 

Inquietante. Assim nos referimos ao romance «O Homem que Acordou Sozinho na Terra» de Lucas Cassule, um escritor, segundo Edmira Cariango, crítica literária, “(...) preocupado com temáticas emergentes da identidade, da memória, da existência e das relações humanas. ”

A noção básica de mistério como anulação da previsibilidade parece ser uma característica presente nas baixas ou altas-esferas do gênero romanesco, cujo alcance amplo e multiforme da realidade — como se referiu Cortázar ao compará-lo sobre a analogia estabelecida entre a fotografia e o cinema, ao conto — é feito mediante o desenvolvimento de elementos parciais, acumulativos que não excluem, por certo, uma síntese que dê o “clímax” à obra. Portanto, há em todo o clima-textual, que compõe este romance de Lucas Cassule, uma invocação de mistério. Não o mistério como complexidade ficciosa em que uma camada expõe a que outra esconde e vice-versa. Somos tentados, ao menos nessa obra, a olhar para o mistério como um modo de existir ou estar na existência. Quanto ao homem de Lucas Cassule, não se trata apenas de quem possui uma existência-contextual, historicamente maior, mas misteriosa — se a concebermos como algo que se desenrola dentro de uma situação comunicativa em que maior parte das coisas estão fadadas a total incompreensibilidade. Inquietante.

O homem de Lucas Cassule, entende, assim que desperta, estar numa vida sem sentido, sem passado, sem identidade e história, um completo nada. Aflito pela dúvida e outros sentimentos aterradores, inicia a sua odisseia apreenso de indeterminações, sendo ele mesmo a sua própria e única companhia e mais: anônimo e desconhecido.

As teorias do romance, pese embora haja certas disparidades entre os teóricos sobre a sua delimitação-definição, concebem o gênero, marcado pela ascensão burguesa, como captura do “drama do homem”, homem moderno. Para Bakhtin, a propagação do romance na segunda metade do século XVIII vinha expressar os dilemas de um novo mundo, numa época em que a totalidade extensiva da vida não era mais dada de modo evidente, para qual a imanência do sentido à vida tornou-se problemática.

Dentro dessa linha de pensamento, na qual o romance seria a captura do drama do homem moderno, enxerga-se no homem de Lucas Cassule qualquer um de nós — por qualquer um de nós, referimo-nos ao homem tomado por uma série de indeterminações, históricas e universais. Ademais, a maneira como ele, um agente-histórico dotado de singularidade se encaixa numa história-universal, acossando incessantemente a verdade sobre si; sobre o mundo onde existe ou que é capaz de compreender; se não mesmo, a ver a existência como um modo de compreensão.

Sartre, na sua filosofia existencialista, percebe o homem (e a sua existência) como ser-histórico, ou seja, ele existe dentro de uma história que não escolheu, maior que ele, e nela opera. A definição da sua essência resulta da sua liberdade de escolha dentro de uma história que não escolheu. Inquietante. No entanto, se estudar um homem é analisar a sua história, melhor dito, a sua consciência-histórica singular como parte de uma consciência-histórica universal torna-se complicado perscrutar analiticamente a consciência do homem de Lucas Cassule, uma vez que ele existe como ser-histórico, mas sem história (da qual possa recordar).

               A Identidade, como veremos lá mais p’ra frente, não deixa de ser um registo histórico, lembrança de nós ou sobre nós gravada nas estruturas neuronais do cérebro. Portanto, todo conhecimento é no fundo um reconhecimento. Se nos apegarmos superficialmente a visão racionalista transcendental, o conhecimento nada é senão uma (espécie de) recordação.   

 

           Dilemas existenciais como implicações do ser

 

Os dilemas existenciais do homem de Lucas Cassule têm origem no «ser» e no «estar». Porém o ser, «quem sou?», parece assumir, nesse romance, uma proporção de «pergunta-fonte». A existência, se vista pela óptica desse homem, está inteiramente subordinada a resposta dessa questão: «quem sou?»

A pergunta sobre o «ser» parece responder todas as implicações filosóficas e existenciais do «estar» ou sobre o «estar».

Se, por um lado, a visão existencialista enxerga o homem como um eterno abandonado, ser inacabado, o homem de Lucas Cassule parece assumir outra dimensão: a de «ser-em-reconstrução». Ele precisa-se reconstruir-se e o romance todo é quase sobre isso. Ante as indeterminações que pensam sobre si, partindo do nada se por nada entendermos a nulidade da sua memória ele precisa reconstruir-se. Assim, recai sobre este homem uma dupla missão existencial, da qual a primeira será sempre a fonte mais amarga da sua angústia: «acabar-se», ser enquanto ser acabado.

Sendo o homem, como diz Sartre, um ser condenado a ser livre, é-lhe impossível escapar da sua liberdade, da responsabilidade de exerce-la. Para Sartre, a angústia é a consciência da liberdade, ou seja, modo de ser da liberdade como a consciência de ser.

O homem de Lucas Cassule não escapa da angústia — a indeterminação que se sobrepõe a qualquer certeza tida, por ele, como inabalável. «Que direção tomar? Por onde começar a descoberta sobre mim?» várias vezes, esse homem se debate com questões do gênero. A verdade é que, lá no fundo, ele enfrenta a indeterminação de não saber por onde andar, mas isso não quer dizer que não almeja chegar a algum lugar. Ele quer chegar a verdade, sobre si, sobre o mundo em que está, como qualquer homem; no entanto, pesa-lhe severamente o «não-saber», ante as múltiplas possibilidades de escolha: que estrada tomar? Mas, tarde ou cedo, terá ele de escolher, de começar a busca sobre si de algum lugar.

Nossa liberdade, como evidencia o homem de Lucas Cassule, não serve para escolher não escolher ou não ter liberdade. Há, no homem em estudo, dois aspectos inquietantes: (1) a certeza plena “sobre o nada” e (2) as imposições morais-estéticas que exerce sobre si.

 O homem — entidade cujo conhecimento do mundo exterior só-lhe é possível através de interpretações associativas de códigos-signos já aprendidos — é tudo aquilo que pode recordar sobre si. Nesse processo, o cérebro, essa grande civilização, constrói todo o seu conceito pela lei da memória associativa em que pensamentos, ideias, sensações, conectam-se a uma dada rede neuronal. Nesse interim, quando os nossos sentidos captam algo no mundo exterior, que nos é estranho, a primeira tarefa do cérebro é tentar compreende-lo segundo uma rede de associação, um registro, qualquer coisa já existente. Se não encontra algo com que relacioná-lo, aí este elemento capturado permanece então incompreendido para nós.

Portanto, se o homem de Lucas Cassule não se recorda de nada, então, ele pode ser tudo e não ser ao mesmo tempo. Não há nele uma consciência moral pré-estabelecida. Mas, talvez, nem seja essa a questão — uma vez que se percebe que a perda da sua memória não se configura, embora nos sugira o romance, como total, mas parcial. Ele não se lembra de ter conduzido um carro, mas sabe como conduzir um, coisas do género. A questão mesmo é que ele não pode assumir nenhuma certeza sobre o que é ou não é. Entretanto, no decorrer do romance, este, em muitos casos, parece atentar contra isso, ou seja, manifestar uma «falsa nulidade da memória», ora vejamos:

 

«posso não estar a lembrar-me de alguma coisa, mas eu sei que não sou ladrão ou coisa parecida.»  (HT, pág. 21)

 

Se ele não se lembra de nada, como é que sabe? Mas a questão não é essa. A questão é como ele tem certeza que não é (ou foi)? De onde vem a sua certeza? Seu julgamento estético-moral sobre as coisas parte da sua nulidade? O que abre o segundo aspecto: «as imposições morais-estéticas que exerce sobre si».

Em muitas situações, o homem de Lucas Cassule, coloca as questões morais e estéticas acima da sua necessidade ou instinto de sobrevivência. Numa das cenas do romance (pág 22, 44), este homem cuja fome severa ameaçava-lhe estabilidade na vida, ao deparar-se com uma espécie de mini-mercado, repleto de alimentos, a primeira coisa que recai sobre si, ao invés do instinto de sobrevivência, é uma espécie de imposição moral, um receio — tal como revela na página 44 — e logo ele “detém-se”. Aqui, a conjugação pronominal reflexa traz à baila um certo peso moral. Muitas das vezes, a sua forma de agir, ser e estar, não corresponde com a situação comunicativa em que opera, nem com seu estado psicológico. Inquietante.

Em suma, «O Homem Que Acordou Sozinho Na Terra», de Lucas Cassule, demarcado por dilemas do ser, como se referiu Edmira Cariango, crítica literária, celebra, debate, questiona, duvida, declara, nega e suscita uma vasta gama de dilemas a respeito da existência humana, da sua dramática odisseia em busca da verdade sobre si. Com este romance, Lucas Cassule, enquanto ser-escritor, prova a sua própria superação se o artista não é um ser acabado, o produto de suas mãos também não é!

Assim, há escritores na cidade — bem como a promessa de que, na presente geração, germinará muitos e bons romances e romancistas. Vale acreditar!



Nzoji Ukulu

Centro de Língua i Literatura


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Referências

CASSULE, Lucas. O Homem que Acordou Sozinho na Terra. Luanda: É Sobre Nós Editora. 1.ed.2024

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: A Teoria do Romance. São Paulo: Editora Hucitec, 2010.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

______. O existencialismo é um humanismo. 3.ed.Tradução de Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova Cultura, 1987.

CORTÁZAR, Júlio. Valise de Cronópio: alguns Aspectos do conto. São Paulo: Perspectiva, 2006.

ABRUNHOSA, M., & LEITÃO, M. Um outro olhar sobre o Mundo: Ensino secundário. Porto: Asa Editores, S. A, 2004.

DAVIDOFF, Linda L. Introdução à Psicologia. 3.ed.Tradução de Lenke Peres; revisão técnica José Fernando Bittencourt Lômaco. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.

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