ESTEREÓTIPOS E AUTOIDENTIFICAÇÃO LINGUÍSTICA E CULTURAL EM LUCAS CASSULE



 

O enfoque do nosso texto recai sobre eventuais Estereótipos, fruto da realização de expressões linguísticas tipicamente angolanas (comummente subjugadas), assim como sobre o sentimento de Autoidentificação Linguístico-cultural dessas formas, na obra «O Homem Que Acordou Sozinho Na Terra» de Lucas Cassule (2024).

Partimos do princípio de que “a presença do Português [em Angola] resulta do contacto entre esta língua e as línguas locais” (Miguel, 2022, p. 120). Trata-se, portanto, duma língua fruto do contacto linguístico entre o português e a demais línguas locais de Angola. Este facto outorgou características específicas ao acervo linguístico do Português Angolano (tomado por nós como português falado em Angola), que é híbrido: não somente latino nem exclusivamente bantu, porém, elas se mesclam e auto influenciam-se, formando a estrutura do que comummente chamamos de Português Angolano, PA.  Tal como entende Reis (2006, p.45), “os resultados dos contactos manifestam-se em graus diferentes nos diversos subsistemas da língua em função da compenetração dos elementos na estrutura geral ou global”.

Ainda emprestando as palavras de Reis (2006, p.32), “a língua e a cultura existem em interacção”. Isto faz eclodir um certo conservadorismo, próprio da consciência colectiva, sobre certas formas realizadas na língua ou, muitas vezes, uma tentativa de depreciação de outras realizações manifestas na mesma língua, gerando, assim, ou a estigmatização ou a autoidentificação linguística.

Na obra «O Homem Que Acordou Sozinho Na Terra», de Lucas Cassule, o texto sugere-nos um episódio em que uma menina, Nyeri, é abordada pela mãe por, na ocasião, apropriar-se da expressão “mamoite” como alternância de “mãe”:

Nyeri estava de costas viradas à saída, pousou os talheres e virou toda atenção à mãe:

— Sim, mamoite.

— Mamoite? Andas a aprender essas coisas de rua em Angola. Essas coisas do Kuduro. (Cassule, 2024:120)

Neste relato, o uso da menina causa: (i) uma reacção de escárnio instantâneo à realização da expressão informal mamoite; (ii) criação de estereótipo ao acervo do quotidiano linguístico angolano e/ou de movimentos artístico-culturais — como referido nas expressões sublinhadas: “Andas a aprender essas coisas de rua em Angola. Essas coisas” do Kuduro”.

O termo “mamoite”, razão do escárnio da mãe, resulta da derivação sufixal do empréstimo Kimbundu “mamã” (relativo à mãe). O termo foi popularizado por jovens de bairros periféricos de Luanda e com inclinações artísticas, maioritariamente, voltadas ao género musical angolano Kuduro — caracterizado por uma linguagem peculiar e diferenciada dos demais géneros. Por sua influência e difusão, o Kuduro tornou-se numa das fontes mais recorrentes de [re]criação neológica do PA. Por assim dizer, muitas expressões usuais, em contextos informais angolanos, ganham espaços através do Kuduro, tal como a palavra de referência — “mamoite ”.

Pereira (2002), entende que “Estereótipo é a caracterização simbólica, muitas vezes depreciativa, que fazemos de indivíduos e grupos”. Neste caso, o pré-julgamento, o olhar depreciativo da realização linguística da mãe, poderá ter sido carregada de Estereótipos e Preconceitos, o que, mais tarde, acabará consubstanciando-se na marginalização/exclusão de indivíduos e de grupos (seus hábitos, sua língua, etc). Tal como acontece na cena de Cassule (2024, p.120).

Cassule (2024, p 124) apresenta um outro episódio em que o uso de tais expressões representou um sentimento de autoidentificação com o repositório linguístico e cultural angolano — uma forma contínua de se estar ligado às origens mesmo na diáspora.

Nyeri levantou-se e lançou-se-lhe outra vez, ao que a pôs no colo quando se sentou.

— E leste mesmo dois capítulos, Queniana?

— Não, mô papoite!

O piloto estranhou daquele linguajar […], mas riu de graça. Sempre temos uma forma de relembrar Angola, disse.

Nas palavras de Guinski (2012) o Estereótipo e o Preconceito “não são fenómenos inatos”. As pessoas não nascem com preconceitos e estereótipos, aprendem, desenvolvem e perpetuam. Daí a relevância do “ensino [respeito e tolerância] de outras culturas e línguas” (Guinski 2012:27). O respeito e a tolerância devem ser treinados desde o berço, perspectivas que, entendidas pelo autor, são muito bem colocadas em debate na obra, fazendo-nos reflectir sobre a importância dos pais (por extensão, família, estado, igreja) no processo de ensino do respeito e/ou tolerância às diferenças, quer físicas, psicológicas, ideológicas, linguísticas. Olhá-las como forma de aprender sobre o modo de viver, de ser e de agir dos outros. Portanto, Lucas Cassule traz à baila um assunto de extremo realce e de reflexão obrigatória, uma vez que, temos um país, em potência, intolerante linguisticamente.

Autor:
 Roidy Cambambe (2024)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Cassule, L. (2024). O Homem que Acordou Sozinho na Terra. Luanda: É sobre nós Editora,

Guinski, L. (2012). Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Estrangeira. Curitiba: Editora intersaberes.

Miguel. A. (2019). Integração morfológica e fonológica de empréstimos lexicais Bantos no Português Oral de Luanda. Lisboa: UL

Pereira, M. (2002). A psicologia social dos estereótipos. São Paulo: EPU.

Reis, V. (2006). Sociolinguística. Dinâmica vs Problemas funcionais da língua. Luanda: Editorial Nzila.


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