CONTRIBUIÇÕES DOS MOVIMENTOS LITERÁRIOS PARA O INCENTIVO À LEITURA E À PRODUÇÃO DE LIVROS EM ANGOLA

 


Os movimentos literários correspondem ao sistema criado por autores, leitores, livros e outros agentes inseridos num contexto e tempo de uma determinada sociedade. Neste artigo, os movimentos literários representam todos aqueles que desenvolvem ou desenvolveram actividades que se predispõem a valorizar o sector dos livros e da leitura em Angola.

Em Angola, os movimentos literários apresentam-se ou subdividem-se em múltiplos papéis associados aos autores, bibliotecários, realizadores de eventos culturais, clubes de leituras, instituições público-privadas e leitores diversos. Estes movimentos constituem um factor fundamental para o crescimento do mercado literário, contribuindo fortemente para o surgimento do ecossistema que se pretende criar para que a leitura seja parte da cultura da sociedade, das comunidades. Tais movimentos, que actuam de diferentes formas, trabalham como múltiplos grupos de mensageiros e fazem com que a voz dos livros circule e se expanda até aos lugares mais recônditos, como em periferias, onde há uma escassez elevada de bens de primeira necessidade e as pessoas, muitas vezes, se vêem obrigadas a decidirem entre comprar um pão, matricular uma criança na escola ou então comprar um livro. Assim ainda é a sociedade angolana de hoje.

 

Surgimento e afirmação

Conta-se que o primeiro movimento literário de incentivo à escrita e à promoção da leitura surgiu em 1975, a Brigada Jovem de Literatura, já depois da independência. Isto pode ser consultado através de portais na Internet, inclusive o Infopédia[1]. Esse movimento, que sofreu várias transformações e ainda funciona até hoje, contribuiu para o surgimento de vários escritores (na sua maioria poetas) e se espalhou por todas as províncias, subdivido em núcleos. Durante mais de 40 anos, organizaram colectâneas, saraus e conseguiram inspirar o surgimento de outros movimentos em gerações posteriores.

Nos últimos 20 anos, um dos movimentos mais sonantes é o Lev’Art, que nasceu em 2006 e marcou a adolescência da maioria dos jovens que actuam hoje no espaço literário. No entanto, para além deste movimento, personalidades individuais também ganharam destaque no trabalho de divulgação da literatura e incentivo à leitura. Uma destas personalidades que se notabilizaram é o jornalista e escritor Victor Hugo Mendes, que realizou actividades literárias em todas as províncias de Angola. As suas acções consistiam em ministrar palestras de incentivo à leitura, à promoção do autodesenvolvimento pessoal, ao empoderamento juvenil e a venda e sessão de autógrafos dos seus livros. A sua actuação jogou um papel muito importante para a sociedade angolana e, especialmente, para a juventude, pois havia, na altura, pouca produção literária feita por esta franja.

 

O crítico literário Hélder Simbad, quando questionado sobre os movimentos literários em Angola, fundamentou:

Em Angola, temos mais Movimentos Culturais do que Literários. O conceito de Movimento Literária implica filosofia e cosmovisão similares. Depois de 2002, parece ser o Litteragris e o Movimento Cultural do Cunene que entenderam isso e construíram estética comum.

O Lev’Arte é um movimento cultural heterogéneo, em que havia diversas visões de arte, mas dominava o pensamento naturalista com características muito próprias em grande parte dos cultores. Lançaram uma antologia intitulada Palavras em que se constatou essa heterogeneidade.

 

Contribuições dos movimentos actuais

Os últimos cinco anos foram muito importantes para o livro em Angola. Houve uma espécie de agravamento das acções dos movimentos e o surgimento massivo de novos autores. Nasceram muitos clubes de leituras e bibliotecas comunitárias. A pandemia da Covid-19, que teve início em 2019, foi um mote para o campo das leituras e criações. Muitas pessoas criaram soluções de sustentabilidade literária de acordo ao contexto e essas iniciativas, que surgiram em plataformas virtuais, passaram a grandes projectos mais tarde.

Um destes projectos é a biblioteca comunitária criada numa pedonal da periferia que chamou atenção de todos (angolanos e estrangeiros). A Biblioteca 10padronizada[2], criada por Francisco Mapanda "Dago Nivel Intelecto” e Arantes Kikuvu Italiano Lopes, sita no Grafanil, em Luanda, inspirou dezenas de projectos espalhados em diversas partes de Angola, com um objectivo comum: oferecer leituras grátis às pessoas das suas comunidades. Foi também no período da Covid-19, em 2021, que surgiu o primeiro portal de literatura angolana ésobreler, que tem servido como um painel de divulgação literária e publicação de e-books, com uma frequência mensal de mais de 2000 pessoas em todo o universo lusófono. Esse portal, criado pela editora É SOBRE NÓS, em 2023 abriu as portas para todos os escritores lusófonos divulgarem o seu trabalho.

Para dar sustentabilidade a este artigo, trazemos um outro núcleo que começou como uma biblioteca e estendeu a oferta de serviços para diversas áreas de transformação do homem, a Associação Livros São Portas.

De acordo com a coordenadora do programa Colóquio sobre África literatura e Contemporaneidade, Cléria Laurinda João Maquiniche, a Associação Livros São Portas[3] nasceu de um clube de leitura com o mesmo nome, fundado em Janeiro de 2019. Passados dois anos, tornou-se na Associação Livros São Portas, uma organização sem fins lucrativos, que visa democratizar o acesso à educação, redução das desigualdades, promoção da cultura e do bem-estar social por meio da literatura.

Actualmente, esta associação conta com três programas, nomeadamente:

1-      Wanda Wa Kutanga: criado com o objectivo de implementar/construir bibliotecas comunitárias, bibliopontos e desenvolver oficinas criativas. Deste programa foram desenvolvidas: a Biblioteca Comunitária Livros São Portas (localizada na Gamek, Luanda) e as múltiplas oficinas criativas, como xadrez, desenho, jiu-jitsu e educação ambiental.

2-      Programa de Clubes de Leitura: criado com o objectivo de criar e gerir clubes de leitura, fazem parte deste programa: o Clube de Leitura Livros São Portas (faixa etária 18-35 anos) e o Kandengues do Txubi (clube de leitura infantil, 6-12 anos).

3-      Colóquio sobre África, literatura e contemporaneidade: um evento anual que aborda assuntos relacionados à cultura, política, economia e literatura. Já foram realizadas quatro edições dentro deste projecto. Para além destes programas, desenvolvem igualmente actividades de capacitação cultural para diversos grupos.

A Associação Livros São Portas conta, actualmente, com aproximadamente 48 membros de diversas idades, divididos nos géneros masculinos e feminino. A sua biblioteca recebe em média 240 visitantes mensalmente.

Em síntese, os movimentos literários têm contribuído para o alargamento do mercado literário e o surgimento de novos autores e leitores. No entanto, falta ainda o engajamento sólido do Estado, através de políticas de facilitação de acesso ao livro, favorecendo o ambiente de negócio da produção de livros, concursos literários, bolsas de criação ou editais, redução de impostos na importação de matérias-primas e outras matérias ligadas ao livro, programas de difusão da literatura e apoio a traduções e promoção da literatura angolana no estrangeiro, subvenção nas produções e apoios na circulação de livros em todo o país, entre outras medidas.

Não temos, até agora, em execução o Plano Nacional de Leitura, embora se debata sobre o assunto há muitos anos, o que seria uma solução eficaz para colmatar ou minimizar as barreiras que a produção e a circulação do livro ainda enfrentam no país. No início deste ano (2024), o Ministério de Educação promoveu um encontro de auscultação com escritores, livreiros e demais agentes ligados ao mercado literário a fim de discutirem o Plano de Leitura 2024/2027. Neste encontro, cada um dos presentes teve a oportunidade de dar o seu parecer sobre o diploma em discussão. Do resumo deste diploma (que pode ser consultado através da Internet, no portal da UCCLA[4]), destacamos dois pontos que invocam os artigos da Constituição da República de Angola sobre o acesso à leitura:

 

3. Este PLANO encontra a sua fundamentação no n.º 1 do artigo 79.º da Constituição da República de Angola: “O Estado promove o acesso de todos à alfabetização, ao ensino, à cultura e ao desporto, estimulando a participação dos diversos agentes particulares na sua efectivação, nos termos da lei”. Constituição da República de Angola ainda no seu artigo 19.º define que: “A língua oficial da República de Angola é o português” e que “O Estado valoriza e promove o estudo, o ensino e a utilização das demais línguas de Angola, bem como das principais línguas de comunicação internacional”.

4. Assim, o PLANALEITURA encontra, igualmente, respaldo nas linhas gerais da Política Nacional do Livro e da Promoção da Leitura, aprovada pelo Decreto Presidencial n.º 105/11 de 24 de Maio e na Lei n.º 17/16, de 07 de Outubro, Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino, que define no seu artigo 4.º os fins do Sistema de Educação e Ensino.

 

 

Ademais, o que o Estado tem feito até agora constitui ainda uma quota insignificante relativamente àquilo que se pretende para que o mercado literário angolano seja sustentável, que propicie e se traduza na qualidade de leitores e de quadros pensantes em todo o país. Entretanto, não nos podemos esquecer que o Estado é e sempre será o principal agente capaz de influenciar significativamente o crescimento do mercado literário, com as suas políticas e as suas acções.

Afinal já dizia Montero Lobato: um país se faz com homens e livros.

Luanda, 08 de Outubro de 2024

Lucas Cassule | Escritor e editor


[1] https://www.infopedia.pt/artigos/$brigada-jovem-de-literatura-de-angola

[2] https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/biblioteca-10padronizada-entre-os-escolhidos-no-crescer-juntos/

[3] https://www.instagram.com/_livros_sao_portas/

[4] https://www.uccla.pt/sites/default/files/a_literatura_angolana.pdf

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