O MUNDO É DO TAMANHO DAS TUAS ESCOLHAS
Quando Nádia acordou
disse para si mesma: hoje, sinto-me a mulher mais poderosa do mundo! Saltou da
cama, o ponteiro do relógio de corda pendurado na parede do seu quarto já tinha
atravessado alguns minutos das cinco horas. Cobriu-se com a sua adorável toalha
de algodão e avançou até ao banheiro. Fez menos do que o tempo habitual, o
entusiasmo que a conduzia obrigava-a a ser prática. O clima não era quente nem
frio, quase que ela nem pensara nisso, tal era a inércia da energia que lhe
tresandava as têmporas.
Precipitou-se ao seu
enorme guarda-roupa de madeira que ainda exalava odor de verniz e o abriu
docemente. Passeou os olhos pelos compartimentos, pausando alguns instantes. O
que vou usar para requintar o meu bom estado de espírito de hoje? Perguntou-se
em pensamentos. Depois, estendeu as finas mãos e pegou uma saia preta de lã
decorada com flores e uma blusa de linho com gola em meia-lua, também preta
(ela amava o preto). Continuou especada, matutando nos pensamentos. Falta
qualquer coisa, sussurrou, tamborilando os dedos da mão direita numa das
prateleiras.
Pegou, finalmente, o
elegante lenço em tecido leve e listrado e disse sim, é isto que faltava.
Escolheu uma lingerie de algodão,
desamarrou-se a toalha e virou-se para o espelho, apreciando a sua própria
nudez, começando então por vestir. Voltou a mirar o espelho. Sim, assim mesmo, arrasa
Nádia!, bradou em pensamentos. Retirou os pés nus do curtíssimo tapete
aveludado, estendido no chão e encostou-se à mesa de cabeceira, capturando do
cimo a pandora em metal prateado, afixando-a no pulso. Voltou a espiar o espelho.
Está perfeito, murmurou. Apimentou a escolha da indumentária com uns calçados
rasos (também pretos) e um retoque a lápis nos lábios.
Dois frascos de perfume
repousavam igualmente na mesa da cabeceira, um da Carolina Herrera, modelado em
scarpin azul-marinho, grafado a ouro
com as iniciais da marca na parte frontal. O outro era Zara Wonder Rose,
ornamentado em vidro transparente. Pegou nos dois e os aplicou no dorso do pescoço.
Para ela, a fragrância sabe melhor com a combinação.
Chegou no serviço duas
horas mais tarde. E, naquele dia, até os dois homens da segurança (destacados
na portaria) repararam na sua aura energizada, e o detalhe foi reforçado pela
voz altiva que ecoou da saudação acompanhado de um belo sorriso: bom dia!
Foi a primeira a abrir o
escritório. A ala de TI ficava num vasto open-space
envidraçado, dividido em pequenos grupos de mesas de escritórios. Ela acendeu a
luz, e pousou a bolsa de couro na sua mesa. Fitou de relance a máquina de café
na minúscula copa ao lado, pensou em começar já com uma xícara, mas mudou de
ideia. Só quando eu voltar, disse, retirando da bolsa um estojo de cosméticos e
o iPhone. Voltou a deixar imediatamente o escritório e
foi até ao balneário. Ali, no interior, defronte ao imenso espelho, retocou
novamente o lápis nos lábios e passou um pouco de rímel para afinar os cílios.
Fitou a mulher diante de si: o cabelo, uma avolumada extensão de cor preta, escorregando-lhe
até aos ombros, o laço produzido pelo nó do lenço que caíra tão bem no seu
pescoço... Ainda bem que fui ao Kiamy Beauty onte, foi o que disse para si, em pensamentos,
referindo-se ao salão de beleza, ao reconhecer o aspecto prado e ondulado que
adquirira o cabelo.
Nádia tinha as sobrancelhas
amparadas e o preto nelas reforçado. Reparou nos detalhes do seu próprio rosto,
no dorso do fino e recto nariz, nos olhos pequeníssimos e quase rasgados nas
extremidades, no queixo um pouco quadrado e curto e em toda a sua forma e
feições, que se tornavam singulares. Naquela hora sentiu mais amor para consigo
mesma.
Tentou, naquele pedaço de
instante, pensar em todas as mágoas que tivera no passado, mas essa visita não
demorou mais do que milésimos segundos, porque, após passar dos trinta anos,
aprendera a fazer as pazes com as suas faltas e a abraçar as suas imperfeições.
Aprendera, igualmente, a perdoar as pessoas. Fizera aniversário há quatro dias,
mas o que lhe preenchia naquele momento era uma sensação de renascimento.
— Nesta quarta-feira,
vinte e seis de Abril de 2023, tu renasceste. Feliz aniversário para ti, Nádia.
O mundo é do tamanho das tuas escolhas! — determinou, finalmente, mas desta vez
não suprimiu a voz, disse-o em voz viva, para a mulher que se encontrava no
espelho e essa mulher sorriu-lhe docemente.
Nádia saiu do balneário determinada
a viver mais para si mesma e repetia a sua palavra de ordem como um mantra na
sua pessoa interior: “abraça os teus defeitos, as tuas qualidades, as tuas
manias e tudo o que tu és. É isso o que te faz única.”
Lucas Cassule, 13 de
Agosto de 2023
Inspirado na foto acima de Nádia Ferreira



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