A última alvorada





Victor Amorim Guerra, Noé Sozinho, Lucas Cassule e Arnaldo de Oliveira







































“O desejo é o pai do poder”
Chateaubriand

***

NOS RECÔNDITOS DO KICOLO


Certo dia, no centro do Kikolo, um pai de família decidiu mudar a sua vida.
Três foram os dias e três foram as noites de choro e medo dos obuses e este homem sem palavras para dizer aos filhos.
Naquele dia ele iria dar melhores condições de vida à família. A decisão estava tomada.
Lágrimas caíram toda a noite antes de dormir, pensado no que fazer, mas dentro de si existia sempre uma esperança, para o seu problema
− Xinguita, vou entregar-me! vou ser militar e ajudar a casa com a ajuda de custos! – falou decididamente Ngunga.
− Ngunga, e se fores morto? De que nos vai servir os subsídios?
No fundo do seu ser ecoavam as palavras da noite anterior: − Xinguita, vou entregar-me, vou ser militar e ajudar a casa com a ajuda de custos!Ngunga, e se fores morto? De que nos vai servir os subsídios?
Muitas das vezes, a mulher frustrada com as condições de vida da família xingava-o em plena rua: − Que tipo de homem és tu que nem um pão consegues dar aos seus filhos? és um fracassado! Um cão sem dono!
− Maldita hora que te aceitei! Deveria ter ouvido os conselhos dos meus pais para me formar antes de manter, agora sou obrigada a vender na zunga para sustentar um homem matulão que não sabe fazer nada…
− Não sei se tenho mais medo de bala perdida dessas rajadas que tem havido um pouco por todo o lado ou das minhas crianças morrerem de fome – dizia Xinguita.
− Está tomada a decisão, eu vou entregar-me na tropa não importa se volto vivo ou morto – pensou.
Na manhã seguinte, aproveitou a alvorada enquanto sua esposa e filhos estavam a dormir, pegou uma mochila, colocou duas vestes de roupas e saiu em silêncio, deixando uma carta sobre a mesa.

Não importa o destino que vou trilhar, nem o que o futuro me reserva, mas tudo que vou fazer é para o vosso bem, se eu não voltar nesta minha nova caminhada, escreva nos vossos corações que tudo isso eu fiz por vocês, lágrimas escorrem sobre o meu rosto enquanto escrevo está carta. A partir de agora sou um peregrino em busca do desconhecido”
Às seis horas da manhã, Xinguita acordou, olhou na cama, procurou à volta da casa, seu marido não estava. Ao passar ao lado da mesa viu um papel dobrado junto com uma caneta azul, seu coração começou a bater forte, seu corpo tremia enquanto abria... Enquanto lia, seus olhos inundavam de lágrimas invadindo seu rosto − Maldito homem suicida! − balbuciou, rasgando o papel e levando as mãos à cabeça.
Depois de ter desfeito o papel em pedacinhos, um vento suave e estranho adentrou o interior daquela residência, os pedaços de papel ganharam voo despertando uma certa curiosidade à Xingita. Um dos pedaços caiu justamente a frente dela, esta apanhou-a e releu o trecho nele escrito − apesar de tudo eu... Amo-te.
Xinguita não conseguiu evitar um choro de arrependimento.
***
Os meninos acordaram também e flagraram a mãe em prantos, sentada no chão e com a cabeça inclinada, soluçando.
− Mamã o que se passa? Estás a chorar por que? Onde está o papá?
Filhos vocês ainda são tão pequenos para entenderem certas coisas. O vosso pai viajou, foi em Malange visitar a vossa avó e poderá demorar algum tempo, então a partir de agora eu sou a vossa mãe e vosso pai – disse.
Desde aquele dia, Xinguita acordava todas as manhãs, reunia as crianças e orava a favor do seu esposo.
Uma semana depois, uma comitiva dos Serviços de Logística Militar (SLM) passou em sua casa, deixaram mantimentos alimentares em nome de Ngunga. Havia feijão, arroz, fuba, óleo e algumas conservas. Era um momento de alegria para aquela Família
− Por favor, têm notícias do meu marido? – perguntou aquela mulher, aproveitando a ocasião.
− Ele está muito bem, foi transferido para a 3ª Região no Muxalando − informaram aqueles representantes.

***

O Bravo guerreiro foi promovido a sargento era um militar exemplar, que combatia com vontade de vencer a guerra e voltar com vida à sua família.
Após três meses de ausência, aquela mulher estava preocupada, sempre que vinham os representantes do SLM trazer mantimentos, ela exigia que os mesmo fornecessem uma prova viva do amado. − Pelo menos uma fotografia, podem usar esses vossos rádios para falar com o meu marido! Como saberei se ele está realmente em vida?
− Minha senhora, estamos em guerra, a guerra não é uma brincadeira! mantenha a calma, vamos continuar a apoiar-te, manteremos contacto – Diziam.
Depois de ter assumido as patentes de sargento, os bens alimentares e de primeira necessidade tornaram-se abundantes na casa de Xinguita, aquela mulher recebeu a notícia com farras em casa, amigos e familiares próximos se juntaram a festa. Havia bebidas e kitutes da terra.
Três meses depois, ela recebe uma carta da 3ª Região onde o marido se destacava. Ngunga tinha tombado em combate. Uma desgraça para aquela senhora, que ficou em lágrimas e prantos, ela e os filhos ficaram desolados. Os senhores da logística desapareceram. Sabe-se que a Dona Xinguita tem andado de baixo para cima a fim de tratar os documentos que lhe permite beneficiar do subsídio de viúva, o drama da burocracia institucional.

***








A vida e a morte são parceiros de mãos dadas. Dona Xinguita continua a sair de casa e fica à espera de ver o marido a voltar. Ela sabe que ele não volta. Ela sabe. Os filhos são a cara do pai e vão crescendo escolhendo os seus caminhos. Ela não sabe para onde eles irão. Ela sabe que vai ficar à espera do amor da sua vida, o único amor.
Nesta situação morreram vários bravos jovens guerrilheiros, nos anos que lá se foram, e até hoje milhares de viúvas e órfãos ainda aguardam, com sofrimento as pensões de sangue dos seus entes queridos que deram as suas vidas em troca da liberdade de um povo. A estes bravos combatentes da liberdade, esta é a nossa singela homenagem.


Fim

Comentários

  1. Que triste! Li com a alma ais pedaços. Para nós, brasileiros, a guerra é um tema abstrato e intocável. Nossos soldados lutaram internamente em 1922, a maioria de nós nem era nascido. Porém sei que a realidade em África é outra. Muitas crianças aí nascem e não chegarão a conhecer seus pais justamente por eles ou estarem na guerra como soldados ou por serem atingidos no fogo cruzado. A coragem e a dor mesclam-se perfeitamente nesse texto. Parabéns!

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    1. Pois, infelizmente essa realidade é muito nova para nós, muitos de nós que ainda estamos nos 30 a 40 anos, vivenciamos os horrores da guerra, vimos nossos pais, irmãos e outras pessoas próximas perderem a vida e nos deixarem sozinhos. Findo a guerra, vem o drama da sobrevivência, imagina uma criança orfã, que caminho percorrer para sobreviver e mudar a realidade da sua vida? pense numa senhora que perdeu o esposo e tem que dar no duro para alimentar os meninos? agora pense num estado cuja política para acudir as pessoas afectadas é um processo eternamente complexo?

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