Os 2 Lados da Lei




Capítulo - 1


Tinham tudo cronometrado para finalizar aquela operação que teve inicio há quase dois anos. O comandante Bula Majô estava a par do assunto, ele falava directamente com o oficial Kijila sobre cada passo relacionado ao processo, o que para Kijila, constituía um grande privilégio, saber que o superior, o grande manda-chuva confiava nele e tratava-o como parte da equipa, isso era um grande incentivo para ele e a sua equipa, um sinônimo de respeito e consideração pelo seu potencial como líder, assim como na qualificação da equipa para exercer aquela operação extremamente sensível.

Desde o início, quando foi enquadrado naquela força tarefa, encarregou-se de tratar os assuntos da operação K, diretamente com ele. Para o Comandante, aquela operação era pessoal. Kijila e seus pupilos desconfiavam que o comandante queria tanto o sucesso da operação, para ascender ainda mais. O cargo de Comandante do Serviço de Investigação Criminal, não era o bastante, via-se logo que ele era um homem inconformado e ambicioso, naturalmente queria mais e mais. Esse pensamento também estendiam os horizontes de conquistas para Kijila, o inspirava muito mais, afinal todo mundo anseia tornar-se no grande Big Boss.

— Ele deseja chegar a Comandante em Chefe, depois, quem sabe para Presidente - Kijila e seus pupilos falavam em tom de gozo em relação aos objectivos do seu Comandante.

***

— Ok, cerquem o local, posicione seus homens e avise-me. 
— Não avancem sem minha autorização!
— Repito, aguarde minha instrução para prosseguir - ordenou Bula Majô, do outro lado da linha após ser informado que haviam encontrado o local.

— Sim meu Comandante, afirmativo - confirmou Kijila, baixando o volume do rádio e logo a seguir voltou a fixar na pasta que se encontrava na cintura.

Preparou a equipa transmitindo a mensagem, assegurando que todos fariam exatamente como recomendado. Solicitou o mapa do local ao Tenente Gino, Marcou as posições dividindo a equipa em dois de acordo a geografia do edifício e sua estratégia de combate, foi assinalando os locais de posicionamento para cada um deles. Eram no total doze agentes rigorosamente selecionados, havia um clima frio naquela madrugada tendo em conta a estação que estavam a viver. Jazia uma certa calmaria, propício para aquela invasão, aquela equipa estava prestes a fazer daquela noite, a melhor de suas vidas. Prestes a cumprir um grande dever patriótico, prender um dos maiores barões do crime organizado de Angola, um grande feito para suas carreiras promissoras.

Havia dois homens armados no exterior do perímetro que faziam ronda, dois guardas do recinto. Kijila fez sinal ao seu parceiro, oficial Gino, para usarem dos seus dotes de artes marciais para imobilizar aqueles dois homens sem dar nas vistas. Ambos, eram os mais bem treinados e condecorados daquele núcleo, daquele tipo de líder que prefere sujar as próprias mãos para executar o serviço, líderes exemplares.

Foram controlando o posicionamento, os dois deixaram a equipa mais para trás em posição de defesa, foram se aproximando até quando chegou o momento, atacaram os dois homens ao mesmo tempo, cobrindo suas bocas e com suas sabres afiadas deram fim a vida deles, arrastando-os imediatamente até um esconderijo. Revistaram os corpos, retiraram e desligaram os telemóveis de cada um, guardaram os documentos para análise posterior.

15 de Junho de 2075, 3 horas e 10 minutos

— Comandante, estamos em posição, pronto para a colheita, podemos prosseguir? - Kijila pediu confirmação de assalto, após garantir que estavam todos em posição de assalto.

— Negativo, mantêm a posição, dê-me alguns minutos, tenho que confirmar com o comandante em chefe.

Kijila olhou à volta, transmitiu em truques combinados com os dedos para o Tenente Gino que chefiava a equipa B, do outro lado do edifício.

Pós-se a olhar os movimentos, copiando os detalhes do espaço inimigo e fazendo marcações daquilo que era o número aproximado de ameaças naquele local. Reparou que havia um grande número em relação aos seus homens, adivinhava-se uma missão com prováveis baixas. Ainda assim, ele sabia que cada um dos homens que estavam ali na sua responsabilidade, estava comprometido com quaisquer que fossem as consequências, todos fizeram seus juramentos. Cada um deles valia por quinze homens no lado inimigo, tendo em conta seus treinamentos tácticos e técnicos.

Havia uma provável vitória, mesmo porque, foi a primeira vez que chegaram tão perto para prender Mabi Kimba, o líder do cartel e seu braço direito que era conhecido por Keller P. Não podiam contar com apoio de mais ninguém, pois a intervenção de mais forças militares naquela missão e naquele momento comprometeria a operação.

O edifício tinha três andares, pintado a cor de tijolo e continha arranjos arquitetônicos de mármore nas extremidades, com um pequeno jango com cobertura verde militar que se encontrava as escuras no terraço. Metade dos quartos estavam com as luzes apagadas, no segundo andar, havia uma janela dupla onde podia-se ver dois homens com chapéu, uniformizados com vestes pretas e armados com aquilo que parecia ser rifle, apontavam suas armas nas proximidades e miravam com os seus binóculos para assegurar a limpeza da área.

O Terceiro andar do edifício parecia o que havia mais actividades, segundo suas diligências, era lá onde se encontrava o líder da colmeia, era o local que havia mais pessoas também, o ponto crucial daquela operação.

Mais próximo a equipa b, havia a guarnição em uma construção de metal sobre mastros gigantes, havia dois guardas, armados e com duas lanternas giratórias e fluorescente, varrendo qualquer ameaça que fosse visível a pelo menos cem metros.

O perímetro era de difícil acesso, o quintal a volta da casa tinha pelo menos setenta metros de distancia para cada lado contando da parede do edifício. O morro era de concreto, com partes metalizadas e coberturas de arames, desconfia-se que os mesmos estavam electrizados.

Havia dois locais possíveis para o acesso ao interior, apenas implicaria que de forma silenciosa e rápida eliminassem alguns inimigos que estavam a segurar o local, uma tarefa que não seria fácil. Do seu lado, Kijila e seus homens não estavam surpreendidos com aquelas dificuldades, ele e seus pupilos já haviam passado por locais a prova de sobrevivência, e durante estes dois anos apenas tiveram quatro baixas na equipa, vários criminosos que eram dados como intocáveis foram capturados e outros mortos por esses bravos rapazes.

— Chefe, nada do comandante? - questionou um agente.

— Psiu, permaneça focado e deixa o comandante fazer o seu papel - Respondeu Kijila, colocando ordem na casa.

Naquele momento todo o descuido seria fatal, estavam em área inimiga e era importante manter a disciplina e a cautela. Na verdade, o facto de não ter feedback do comandante, era uma preocupação sua também. Mas, como líder, não poderia transmitir esse sentimento na sua equipa. Doravante ele ficava a olhar pelo rádio desejando aquela chamada do seu comandante, essa sensação deixava-o cada vez mais tenso. Não demorou muito para que a inquietação chegasse na equipa b, seu parceiro Gino, fez aquele sinal habitual com as mãos para dar a entender que estavam a ficar sem tempo. Naquele momento, ou tomavam partido daquela oportunidade, descumprindo as ordens do comandante e prenderem aquele chefão, ou então todo aquele processo ia colocar em riscos a sua equipa e todo o trabalho que têm feito até então. Estava prestes a clarear, não tardaria muito até que os homens de Mabi tomassem conhecimento do desaparecimento de dois membros e da presença dos seus homens naqueles arredores.
***

3 horas e 50 minutos do mesmo dia...

— Chefe, a casa parece estar vazia, podemos começar as buscas? - Inspetor Yuri Sindicato informou ao seu superior enquanto ele e seus homens cercavam a casa do cidadão Kijila Kiami.

— Sim, avancem, conhecem os procedimentos, verifiquem tudo, não saiam daí de mãos vazias, sabemos exatamente o que procuramos e a nossa fonte é segura - Ordenou o Chefe no outro lado daquele micro-comunicador Bluetooth de última geração colocado sobre uma de suas orelhas.

— Afirmativo meu chefe - confirmou oficial Sindicato

Após terem a certeza que ninguém respondia de dentro da casa arrombaram a porta traseira e a frontal ao mesmo tempo e invadiram a residência. 

— Atenção, não toquem em nada sem a minha autorização, quero acompanhar de perto cada item que vão revistar, não esqueçam que estamos na casa de um membro da corporação - Sindicato, advertiu aos seus homens.

O compartimento tinha dois quartos, uma suite, duas salas, uma cozinha, um escritório e um outro anexo que parecia ser os arrumos. Na sala de jantar havia condições básicas, para alguém da classe média. Na parede havia alguns quadros fotográficos, fotos de formatura na academia Policial Ondjango, Fotos de convívios e diplomas de mérito, menções honrosas, havia também Medalhas do Exército ao serviço da pátria.

— É um homem de honras - realçou um dos agentes naquele local

— Mas com estas condições todas, não admira nada que seja corrupto - ressalvou Sindicato.

Foram diretamente ao escritório de acordo recomendações da denúncia anônima. Sindicato mandou o restante da comitiva aguardar na porta e segurar o perímetro, entrou com apenas trés homens, começaram a averiguar cada detalhe para ver se encontravam alguma coisa. Foram vasculhando e não encontravam nada demais, decidiram sair e estender as buscas noutros compartimentos. Enquanto saia, Sindicato olhou na parede à direita, havia um quadro de pelo menos trinta centímetros de comprimento e vinte de largura, com figuras abstractas de várias cores pinceladas a óleo.

Aproximou-se e afastou a tela um pouco ao lado, havia uma abertura, parecia um esconderijo, uma espécie de cofre, ordenou a um dos agentes para retirar a tela de forma cuidadosa e silenciosa. Naquela cobertura, tinha um revolver Glock G29 com vários cartuchos preenchidos com munições. Havia também uma sacola preta, retiraram com bastante cuidado e pousaram no chão. Sindicato deu trés passos por de trás da porta e mandou um dos agentes rasgar o saco selado para averiguar o que havia no interior. Este pegou em uma sabre, rasgou o cimo do saco, no interior havia vários pacotes em plásticos brancos em peso de um quilograma cada, colocaram todos os saquinhos acima do tapete, havia pelo menos quarenta pacotes. O oficial Sindicato ordenou ao agente da narcóticos para verificar a tipografia do produto.

— É cocaína pura meu chefe! - confirmou o agente.

— Malditos policiais corruptos! - proferiu enfurecido o inspector Sindicato

***

— Sim, meu comandante - Atendeu o rádio e confirmou rapidamente.

— Kijila, recebi ordens imediata para abortares a missão, recolha seus homens e dirijam-se para vossa área de fuga - recomendou o comandante.

— Impossível meu comandante, esta é a melhor das oportunidades para dar fim nisso. Eu prefiro terminar a missão mesmo sem autorização, mesmo que para isso eu apresente minha demissão depois - Kijila desafiou seu comandante.

— Aló comandante, estás aí? 

Infelizmente o seu comandante já havia desligado após ter dado a ordem de cancelamento, ele nem se quer ouviu sua decisão deixando-o em uma situação pior. Tentou retornar a chamada mas o contacto do mesmo dava ocupado, tentava várias e várias vezes sem sucesso. Olhou a volta, encarou a sua equipa que estava de olhos nele a espera que desse o aval para prosseguirem. Ele fez sinal de que precisa de pelo menos mais alguns minutos, ainda assim, não transmitiu a mensagem do comandante. O seu instinto o recomendava a prosseguir com o assalto portanto naquela momento ele estava em conflito com seus ideais, afinal apesar de tudo, ele devia lealdade ao seu comandante, tanto pela lei militar assim como por princípios. Desde sempre eles se locomoveram com o parecer do comandante, até chegarem à aquele lugar.

4 horas e 35 minutos do mesmo dia

Oficial Kijila levantou a mão e fez sinal para todos retomarem seus posicionamentos, tinha mesmo acabado de decidir que pela primeira vez desobedeceria uma ordem e seguisse com os seus objetivos. Tentou levantar a mão outra vês para uma nova orientação, de repente, trés carros da Polícia de Intervenção Rápida, cheios de agentes e completamente equipados estacionaram nas proximidades e posicionaram-se em forma de ataque.

— Inspector-Chefe Kijila Kiami, sou o Inspetor-Chefe Julio Kodija, Décima Brigada de Intervenção Rápida, Por favor, junte seus homens, coloquem suas armas sobre as mãos levantadas e aproximem-se... Não há rasões para complicarmos as coisas. Repito, não há rasões para nos complicarmos, estamos apenas a cumprir ordens - Ordenou aquele oficial usando um megafone.

Os agentes do oficial Kijila tomaram posições de defesa, preparando-se para possível confronto agora com aquela comitiva policial, caso fosse necessário, um confronto entre irmãos.

— Senhores, façam como recomendado por favor! - disse Kijila aos seus homens

— Mas chefe?

— Gino, tu ouviste, vamos abortar a missão e aproximar-se para sabermos o que esses homens querem. De certeza que vão querer nos tirar o pão da boca, agora que acabamos de fazer todo o trabalho árduo - enfatizou oficial Kijila.

Após aproximarem-se do local, foram ordenados a permanecerem parados e foram desarmando cada um deles.

—  Meus senhores, qual é a razão para isso? Vocês pelo menos fazem ideia de quem somos? Nôs temos identidades senhores, verifiquem! - salientou Kijila completamente zangado.

— Inspetor-Chefe Kijila Waldemar Kiami, o senhor está preso por posse ilegal de quarenta quilogramas de drogas apreendidas na sua residência, tem o direito de permanecer calado, tudo o que disseres será usado contra si no tribunal, o senhor tem o direito a um advogado, pode solicitar um quando chegarmos na penitenciária - proferiu aquele oficial da intervenção rápida, enquanto seus agentes algemavam Kijila.

Kijila obedeceu e ordenou para que seus homens cumprissem tudo o quanto lhes recomendassem. Por seu turno, seus homens foram liberados a partirem sem suas armas, com alegação de que fazia parte do protocolo de segurança.

O oficial Gino, ainda tentou persuadi-los a averiguar a situação, alegando um engano ou mesmo uma possível cilada, de nada serviu. A comitiva virou a marcha e levaram seu líder deixando-lhes no local. A equipa agora sob liderança temporária do oficial Gino, abandonaram o perímetro e foram onde haviam deixado as viaturas a fim de tentarem a todo custo provar a inocência do oficial Kijila nas próximas horas.

***
Fim de capítulo

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